Resumo Atma Nirvriti - Sri Atmananda (Krishna Menon)

Satsang espontâneo e livre é a força pura da expressão do Silêncio.

Conduz à contemplação meditativa através das palavras. Desperta a Visão: sua natureza real

sendo reconhecida. E deixa o coração em júbilo pelo reconhecimento de estar em

casa, casa de onde nunca saiu!

Os estudos de textos de sábi@s e de escrituras consagradas da não-dualidade

trazem uma organização, um modelo para que a compreensão cognitiva tenha base

bem enraizada na Verdade de tal forma que não há invasões de condicionamentos

ilusórios que encubram sua realização.

Esta breve introdução aos Resumos do texto Atman Nirvriti moldelados pelo

Manoel vem com o sabor de encontrar junto com ele a alegria de deixar pegadas no

solo desta Terra que iluminam. Foram semanas dedicadas a estes encontros, on line

em tempos de pandemia, com a sangha. Como método de limpeza, de fixação, de

alquimia existencial, teve-se a proposta de resumir cada encontro. Celebração e

simplicidade deste trabalho sem esforço e livre como um pássaro em pleno vôo. Este

texto é o fruto maduro.

Junto o tom da reverência, que é pura gratidão a est@s que traçaram rotas

preci(o)sas e tiveram o dharma de deixá-las em mapas para nós. Atmananda Krishna

Menon, indiano do início do século passado, é considerado um dos que trouxe o

Caminho Direto como método de realização espiritual.

Atman é o termo usado nos Vedas, as sagradas escrituras da Índia, a herança de

sabedoria, com o intuito de inspirar a iluminação da pureza de sua identidade, não

associada, não poluída, não confundida com sobreposições. É o que você é, intocado

pelo tempo, nunca ausente. É o que você realmente é!

Nirvriti é um termo, como tantos, que a sabedoria precisa tão detalhada destas

escrituras faz brilhar. Necessita de múltiplas expressões para se trazer significância

para a língua portuguesa. Então, como imagens que se formam aos poucos, quando a

visão vai focando melhor uma paisagem, inspire expressões do tipo: paz, descanso,

contentamento, liberdade.

A jornada chega ao fim. Descanso. O que as aflições geravam por ignorar sua

natureza real, infinita, imutável, está desfeita na sabedoria do que é.

Você é Atman, você é o sempre presente, você é sabedoria. E amor. Este texto e

seus comentários têm apenas uma função: deixar tão clara sua verdade que o selo

estará indelével em seu coração.

Para isso, sim, cuidadosamente “ouvir”, com a confiança e a delicadeza de quem tem

a honra de, nesta vida, ser convidad@ para o local mais nobre que se possa ir.

 

Verificar a compreensão - e aí que entra a riqueza dos comentários. Compreender,

não só as palavras, mas seus sentidos últimos, profundos, onde a compreensão vira

realização.

Foi nesta compreensão que Manoel Lucas foi tecendo estas anotações (resumos

muitas vezes maiores que o próprio texto)! A beleza da Compreensão é visível, vocês

comprovarão!

 

Itens 1 (Atma) e 2 (A eliminação de uma dúvida fundamental sobre a consciência) 

 

Quando a percepcão da Real Natureza em tudo transborda em si mesma, a clareza

de que Eu não faço, não hajo, não falo, não sinto, não penso, não desfruto, não nasço,

não morro, se revela.

Nada que o corpo ou a mente pareça fazer pode alterar ou macular aquilo que sou -

Pura Consciência luminosa - Ela, luz que é emanada, ilumina a manifestação do que

Sou antes mesmo de se manifestar e também depois.

Sem o silêncio que antecede o som, ele não seria possível pois necessita de uma

base. A base do som é o silêncio. O som aparece e se vai. E mesmo quando a

ondulação sonora cessa, o silêncio continua.

Da mesma forma, o mundo aparece e se vai em mim, o Atmam. Sou eu quem

sustenta a vida. Sem mim, nada é. Como sou eterno, tudo sou eu.

A obviedade Consciêncial é de tamanha profundidade, que se expressa

naturalmente, sem que haja necessidade de raciocínio prévio para se constatar que se

é CONSCIENTE. E mesmo raciocinando, se perceberá o óbvio da eternidade que Sou

(Atman). Então, não há necessidade de um objeto para se experienciar a Consciência.

Em verdade, a todo momento só há Eu Consciente me experienciando.

 

Itens 3 (Ver e ouvir) e 4 (O conhecimento é sempre alheio aos objetos)

A forma só existe quando há o ver. Na há formas para serem vistas, o que há é a

visão de SI mesmo em SI mesmo. Dessa forma, como pode ainda permanecer a ideia

de que o mundo existe independentemente?

Conhecer os objetos externos não dá realidade a eles. Se pode confundir uma corda

com uma cobra, mas isso não faz da corda uma cobra, apenas prova o conhecimento

do que é uma cobra.

 

Assim, conhecer o mundo manifesto, prova apenas o conhecimento do mundo, não a

sua existência real.

Aquele que vê o ATMAN em tudo como a Luz que dá aparência aos objetos,

permanece na grandeza de ver o real no irreal, sem se confundir com o que está

sendo iluminado. Aí está a morada suprema, a Verdade Absoluta de pacificidade

inabalável e serena.

 

itens 5 (O substrato do mundo objetivo) e 6 (O homen ignorante e o sábio) 

A base de tudo, a origem que sustenta a manifestação dela mesma é o que dá

sustento ao mundo que se percebe.

Os sentidos não possuem existência por eles mesmos. E com os órgãos dos sentidos

não se pode conhecer o substrato de tudo.

Percebe-se, através dos órgãos dos sentidos, a forma e o aroma de uma flor, mas o

que é realmente uma flor?

Assim, há a ignorância do que é a base dos objetos dos sentidos (mundo manifesto).

A base é a mesma para todos, o que difere é apenas a forma, assim como se pode ter

um colar com diversas miçangas diferentes mas o que mantém a natureza de um colar

é o fio que une as miçangas e mesmo sem as miçangas o fio permanece como um fio,

sem ser percebido.

Portanto não há diversidade na base da manifestação, ela é discretamente a essência

e possibilidade de tudo, é o eu, é a Morada da Paz Suprema, toda Consciência.

Um homem ignorante acredita ser um corpo, seja esse corpo grosseiro ou sutil.

Essa compreensão permanece sem que ele faça qualquer esforço, assim aquilo que

acontece ao corpo é entendido, dentro de sua ignorância, que esses acontecimentos

acontecem para ele mesmo. Se o corpo sofre, pensa o ignorante que ele é quem está

sofrendo, se o corpo prova o gozo do prazer, ele reivindica esse sentimento como

sendo ele mesmo experimentando.

O sábio compreende que o mundo manifesto é iluminado pela consciência e que

aquilo que se vê e o que é visto é ele próprio sendo visto por ele mesmo (pura

consciência autoluminosa).

Esse conhecimento não precisa de esforço para ser mantido, pois para o sábio essa é

a realidade absoluta e eterna do que se é.

Sabendo disso não há iluminação para se alcançar, afinal, não há outra coisa senão

consciência auto-luminosa.

 

Assim, a vontade de conhecer ou experienciar qualquer coisa que seja não aparece

para aquele homem sábio, a imutabilidade é óbvia. Então se vê que não há nada para

ser mudado.

A profundeza da compreensão de que se é a consciência é tão forte que antes que a

manifestação consciencial apareça essa compreensão já resplandece.

Com ou sem o mundo manifesto, o sábio sabe que é a própria origem de tudo e

permanece feliz, livre, em profundo contentamento e em paz.

 

Itens 7 (A origem e dissolução do mundo), 8 (Para além de qualquer dúvida) e

9 (Conhecimento não é o nome de uma função)

Todo conhecimento dos objetos é pensamento. Assim aquele que testemunha os

pensamentos, é o ATMAN (Eu).

Quando o Eu não é visto como a testemunha, a junção entre o pensamento e o Eu,

faz com que esse se torne o pensador.

Em seguida a testemunha vira o percebedor físico, então o pensamento que vem por

esse percebedor torna-se um objeto grosseiro (eu pessoal), e todo o mundo manifesto

aparece. Por conta da ignorância de Mim (Eu Real), os viventes vivem em cativeiro.

Essa ignorância causada pelos invólucros de equívoco só pode ser desfeita fazendo o

caminho inverso da construção dessas sobreposições.

Alcança-se a realidade última quando se vai além da existência e até mesmo da não

existência do mundo objetal.

Todos os objetos percebidos (aqui se inclui pensamento, sentimento e até o senso de

eu), são dissolvidos no conhecimento. Dessa forma eles são apenas consciência.

Se um pote de barro é quebrado, ele só poderá ser dissolvido na terra, uma vez que é

feito de terra. Jamais poderá ser dissolvido em outra coisa. Da mesma forma, uma vez

que há a afirmação "eu conheço algo", seguindo de um examinar correto, percebe-se

que esse algo foi dissolvido em sua própria natureza (Conhecimento).

Então se conclui que a função de conhecer, denotada na frase "eu conheço algo", é

incorreta. A verdade é que o algo se tornou Conhecimento, pois esse é o substrato do

algo e não há algo separado para ser conhecido.

Quando essa verdade revelada se assenta plenamente na mente, o que resta é uma

profunda mudança de atitude.

 

Itens 10 (Paz e Conhecimento), 11 (Os pensamentos e Eu mesmo),

12 (A não existência de objetos)

 

Os sentimentos nascem e desaparecem na Paz. Por isso, a essência (swarupa) dos

sentimentos é a paz. Da mesma forma estão os pensamentos para o Conhecimento.

Paz profunda e conhecimento puro são exatamente a mesma coisa, só que vista de

ângulos diferentes. Por isso recebem nomes diferentes.

Assim, como que os pensamentos e sentimentos que aparecem e somem dentro de

mim podem ser algo diferente de Eu Mesmo?

Quando eles aparecem, sou eu me vendo; quando não aparecem, descanso na

gloriosa vastidão de Mim Mesmo.

Não se pode haver dúvidas quanto ao fato de que nem antes nem depois do ver há o

"visto".

Quando essa obviedade é assentada em sua profundidade, se percebe que mesmo

durante o ver, não há o visto.

Todo cativeiro é cessado a partir daí.

 

Iten 14 (O passado sendo passado) - Resumo - Atman Nirvriti.

 

Por conta do pensamento ser sutil, não pode ele entrar em contato com objetos

grosseiros. Pois cada um deles está em um plano diferente, por isso, não há como se

pensar num objeto grosseiro e é um erro afirmar que se pode.

Não há dúvidas de que um objeto sutil é uma forma-pensamento. Então é um

equívoco afirmar que há objetos sutis que entram em contato com os pensamentos

(pois a forma pensamento do objeto é um pensamento), e não se pode ter um

pensamento dentro de outro.

Um objeto que é pensado, não é um objeto, dessa forma, o pensamento que invoca a

forma de um pão, não faz com que se possa comer um pão, então se conclui que um

pensamento não pode possuir nenhum objeto.

Esse pensamento livre de objeto é o nosso real domínio, livre de forma, limites ou

mudanças.

A palavra Eu, aponta para esse domínio.

Se o pensamento não possui existência, onde existe o cativeiro? Nunca pôde existir tal

coisa, pois o cativeiro era a ignorância da crença de que haviam objetos de

pensamento e pensamento. Vendo que nunca existiu tais objetos por conta da

inexistência dos pensamentos, se vê que nunca houve, não há e não haverá cativeiro.

 

Iten 15 (O sujeito e o objeto são um em Mim mesmo) - Resumo - Atman Nirvriti

 

Só há Eu Mesmo experienciando Eu Mesmo. Experiência e conhecimento estão em

Mim, estando em Mim, Sou Eu.

Quando vejo uma paisagem não é um eu separado vendo uma paisagem fora dele,

não existe tal coisa. A paisagem contemplada está dentro de Mim e o contemplador

também. Estando tudo em mim não há existência fora, não há fora.

O que está dentro Sou Eu, então a experiência e o experimentador são o mesmo Eu.

E graciosamente esse mesmo Eu, Sou Eu.

Justamente por Eu ser é que tudo Sou eu, eu me revelo como tudo, dentro de mim.

Tudo dentro de mim Sou Eu, eternamente, permanentemente, absolutamente.

 

Iten 16 (O ''Eu'' em seu estado puro) - Resumo - Atman Nirvriti.

A palavra "eu" está todo momento apontando para o princípio que resplandece entre

os pensamentos e no sono sem sonhos.

Aqui não há mente. Ela se dissolveu. Por isso ela não pode perceber.

Veja que mesmo com o dissolver da mente, há Presença. O olhar cuidadoso em

vigília, voltado para essa Presença, torna-se a a própria Presença (Samadhi).

É chamado de Sahaja-Samadhi o estado natural. Nele, o centramento no Si Mesmo é

permanente, mesmo que haja pensamentos ou não.

 

Iten 17 (Percepções e objetos) - Resumo - Atman Nirvriti

 

O ver entra na composição da forma e a forma , na composição da visão.

 

Ver, forma e visão são uma coisa só, por isso são inexistentes independentemente.

Essa verdade vale para todas as percepções sensoriais.

As percepções sensoriais, quando não são examinadas com sinceridade, parecem ter

existência real independente. Mas AQUI são vistas como inexistentes, realmente.

Dessa forma como pode haver alguém que vê algo? que ouve algo? que sente algo?

que pensa algo?

Ninguém faz nada, já que objetos e atividades sensoriais não existem.

Assim, todos estão dormindo profundamente. No estado profundo de sono onde não

há ignorância, não há o não-conhecimento, só há um Mar inundado de Si Mesmo.

 

Iten 18 (Para a mente)- Resumo - Atman Nirvriti

 

Se você afirma que é Eu e pretende viver como quiser, será que terá o cumprimento

dos seus desejos?

Se você acha que através de tal declaração seus caprichos serão aceitos por Mim,

você está enganada. Para viver conforme essa declaração terá que tentar Me ver. Eu

estou em todas as direções, mas, primeiro olhe para trás e tente Me ver.

Estou atrás de todas as atividades, não é difícil se voltar para Mim, sou Eu quem olha

para tudo desinteressadamente.

Quando se virar para Me ver, te levarei ao centro do seu Ser e lá você Me verá.

Depois você, mente, me verá em seus pensamentos e sentimentos e verá que eles

são nada além de Mim.

Como todos os objetos que você percebe são apenas formas-pensamento, também

serão vistos como Eu.

Dessa forma você verá que não se difere de Mim, então a sua afirmação de que é Eu

se tornará realidade quando essa não-distinção for alcançada.

 

Iten 19 (Puja* dos órgãos dos sentidos e da mente) - Resumo - Atman Nirvriti.

 

Todas as atividades dos órgãos dos sentidos e da mente visam a Mim, que Sou

Felicidade Pura.

 

Dessa forma, todas as atividades são oferendas a Mim, estou sempre as observando

desinteressadamente em repouso.

Constantemente estão se perdendo na passividade ao me tocarem, sem se darem

conta disso. Ao saírem da passividade, voltam a Me prestar oferendas através de suas

variadas atividades.

Uma vez que se faz a compreensão de que todas as atividades são oferecidas a Mim

e que na passividade permanecem me tocando, todo sofrimento cessa, afinal, Sou

Pura Felicidade.

A partir daí, toda ignorância acaba, pois se sabe que toda ação é não-ação e toda

passividade é não-passividade e que não há um ente separado.

O ente que dissolve a ignorância através desse conhecimento é dissolvido juntamente

em Mim.

*PUJA (pronunciado Puja) é adoração ou culto feito a um ídolo

(Deus). Consiste em vários atos, como banhar o ídolo ou lavar os pés,

colocar as guirlandas em volta do pescoço, aplicar pasta de sândalo na

testa e outras partes do corpo, queimar cânfora na frente dele e

lançar flores aos seus pés. O ato final é a postura do devoto diante do

ídolo. Tudo isso constitui o Puja. Esses atos, tomados por si mesmos,

não têm conexão entre si. Eles se conectam através do ídolo. Da

mesma forma, as várias atividades dos sentidos e da mente estão

conectadas entre si através do aspecto "Felicidade" do “Princípio-Eu”

 

NOTA: Aqui no resumo foi utilizada a palavra ''oferenda'' para que talvez seja de

melhor compreensão.

 

Iten 20 (O Estado Natural) - Resumo - Atman Nirvriti.

 

A Consciência é uma e a mesma por todos os lugares. É dela que aparecem os

objetos em suas variedades. Por conta da Consciência estar conectada a todos os

objetos que dela surgem, a mudança objetal é vista como a mudança da Consciência.

Porém aquilo que percebe a mudança dos objetos é a própria Consciência.

Objeto algum pode causar mudanças na Consciência. Se Ela mudasse, não haveria

percepção da variedade dos objetos. Na observação de movimento, aquele que

observa precisa estar em repouso.

O corpo, os órgãos dos sentidos, a mente, a vontade e o intelecto são objetos. Esses

acabam por serem destruídos, pois aquilo que muda está fadado à destruição. A

Consciência é em Si Imutável.

Por conta da inabilidade de vê-los como objetos, os entes se encontram na ilusão de

que esses são imutáveis. Ao ver o desvanecer desses (obejetos), o ente, embebido da

ilusão de que os objetos são eternos e doentes da cegueira para verdade de que só

há consciência, colhem as migalhas dessa ignorância em forma de sofrimento.

Sendo-se sempre o Conhecedor, não se pode ser o conhecido. Mesmo a ideia de um

conhecedor é errônea, pois denota que há alguém encarnado. Mas em Verdade esse

que conhece é o próprio Conhecimento em Si.

É na Consciência que todas as atividades se sucedem. Assim nada pode obscurecê-

la, pois ela está em todas as atividades mentais como pensamentos, sentimentos, dor,

prazer e tudo mais.

Um ente pensa ser limitado e se vê em miséria, busca a liberação dessa miséria,

encontra um guru e escuta seus ensinamentos. Porém, todo esse tempo ele sem

perceber sempre esteve na pura consciência apenas, a qual ela mesma é a verdade

que ele procura.

Uma vez que esse fato ilumina a sua ignorância, ele está liberado e todos os

pensamentos, sentimentos e ações, bem como tudo que por ele é visto, apontam para

ele mesmo.

 

Iten 21 (Tudo é Consciência) - Resumo - Atman Nirvriti.

 

O Conhecimento não tem nada para conhecer pois ele é Um, sem segundo. Sendo

assim, como pode haver algo novo para ser conhecido se só há Conhecimento?

Por isso ninguém conhece nada, tudo e todos estão permanentemente estabelecidos

como a pura Consciência.

 

Iten 22 (A decepção do Atman) - Resumo - Atman Nirvriti

 

Todos os pensamentos, sentimentos e tudo mais foi criado por Mim. Unicamente para

poder me tornar conhecido. Mesmo assim as pessoas (que são elas também minha

criação), não me veem e se apegam aos objetos de seus pensamentos e sentimentos.

Se veem presos no sofrimento por conta da ignorância de Mim. E como ainda

esperam serem livres do cativeiro?

Criei um estado onde não há objetos, o sono profundo. Para assim também me dar a

conhecer. Nesse estado nada pode ser visto, apenas Minha Presença permanece

nele. Eu estou também em todos os estados e para além .

 

Mesmo assim, as pessoas nada veem nele pois os pensamentos sentimentos e seus

objetos não estão lá e a ignorância de Mim é tão grande, que a Realidade que sou,

nesse ponto de vista, foi limitada apenas aos objetos que de Mim surgem. Com

objetos ou sem, sempre estou aí, imutavelmente.

Estou bem na frente dos olhos, é por mim que todos podem ver, mesmo que

ironicamente não me vejam, isso é o mais surpreendente.

Se uma pessoa insiste em fechar os olhos com véu que é os objetos externos,

mesmo estando cara a cara comigo, mesmo sendo Eu mesmo todos os objetos e até

mesmo a pessoa, como pode ela Me ver?

 

Iten 23 (A experiência* é o mundo objetivo) - Resumo - Atman Nirvriti

Apenas o que deve provar a existência de qualquer coisa é a experiência, não

palavras, ideias ou construções intelectuais. Essas podem até apontar para a

experiência, mas só a experiência direta provará o sabor da Verdade autêntica.

Um objeto sendo um objeto nunca é experimentado. O que é experimentado é o

conhecimento do objeto.

Mesmo isso não está de todo correto, pois o conhecimento objetal só é experienciado

mediante a Consciência (Conhecimento com "C" maiúsculo), que é a base de tudo.

Dessa forma, qualquer objeto e qualquer conhecimento de objetos, não são

experienciados.

Aquilo que não se pode experienciar não pode ser ter existência. Assim, como pode

haver conhecimento de algo não-existente?

Então, não é nem o conhecimento de um objeto que se experimenta, mas sim o

próprio Conhecimento ( Consciência).

Portanto a experiência do Conhecimento em Si Mesmo demonstra que o mundo

objetivo é somente Conhecimento.

Isso é CONSCIÊNCIA, isso é ATMAN.

Nota: É como uma receita de um só ingrediente se experimentando.

 

* A experiência é mais profunda que o conhecimento ou o

sentimento superficiais. É nesse sentido que a palavra é usada

aqui.

APENDICE ''EU" 

 

O significado da palavra "eu" não tem importância para o homem comum (aquele

homem que vive no mundo, que tem nome, família, história e etc), ele nem precisa

disso para suas atividades passageiras.

Somente quando o interesse pela vida mundana é perdido e se desenvolve um

profundo e sincero desejo de conhecer a Verdade é que a atenção se direciona para

assuntos espirituais.

Aqueles que são puramente mundanos (que estão completamente envolvidos na forte

crença de que os objetos de prazer são uma fonte de felicidade), e não querem saber

de nada mais, jamais tiram proveito de ouvir a Verdade.

E há aqueles que possuem certas tendências mentais (Samskaras), que se mantém

adormecidas por conta de influências temporárias que são contrárias a essas

tendências. Quando a Verdade é ouvida por esses, seus samskaras despertam e

ocorre um desejo sincero pela Verdade. Esse desejo os leva ao seu objetivo, que é a

liberação do cativeiro nascido de um olhar ignorante para Si Mesmo. Ela é obtida

quando ocorre o estabelecer-se na verdadeira natureza do "Pincípio-Eu".

A ignorância de si mesmo está na indiscrição que há ao usar a palavra "eu" para se

referir as coisas.

Há identificação com o corpo quando se diz que é gordo ou magro e etc; com os

sentidos quando se diz que vê, que escuta e etc; e com a mente quando se diz que

pensa deseja ou sente.

O fato de que conheço as atividades do corpo, dos sentidos e da mente e ainda tenho

a convicção de que eles são orquestrados por mim estão bem claros na experiência

de todos.

Então, conforme isso, todas essas atividades estão no campo do conhecido, pois há o

''Princípio ''Eu'' que as conhece e que é separado e distinto delas.

Enquanto o funcionamento dessas atividades acontece, o Princípio ''Eu'' permanece

estático em observação, como testemunha.

Ver-se como testemunha nos ajuda a sair da ideia de que somos o fazedor-

desfrutador e estabelecermo-nos no Princípio ''Eu''. Mas mesmo testemunhar é um dos

véus que cobre a face sem face Daquilo que Verdadeiramente É, cedo ou tarde essa

ideia também se dissolverá.

Pode-se demonstrar de outra forma que o o Princípio ''Eu'' é distinto do corpo, dos

sentidos e da mente. Os estados de vigília, sono profundo e de sonho são comuns

para todos. Assim, é certo que eu estou em todos eles, por mais que a mente e o

corpo sejam de uma forma na vigília e no sonho de outra, e desaparecem no sono

profundo.

Esse eu transcende os três estados, obviamente. Afinal eu sempre ESTOU, enquanto

que os estados testemunhados constantemente deixam de estar.

Uma vez que esse saber se dá no eu, ele é da natureza da Consciência, que nunca

desaparece.

Se há objetos, eu os vejo. Quando não há objetos, permaneço na Consciência Pura,

que é minha própria natureza.

Os eventos oníricos não afetam a vigília, pois esses são limitados ao estado de sonho,

da mesma forma é com os eventos que se passam na vigília (não afetam os eventos

do estado de sonho). Isso evidencia que o quer que aconteça em qualquer estado,

não me afeta. Por isso se estabelece a certeza de que o Princípio ''Eu'' que é de

Natureza Consciente, também nunca é afetado.

Os objetos me dão prazer. Por isso eu os amo e os procuro. Isso prova que os objetos

não são amados por si mesmos. O "Pincípio-Eu" é mais amado do que os objetos.

Mas, transcendendo até a mente, ele não é amado como um objeto. Então a felicidade

que há não vem de objetos. A felicidade é pura felicidade em si mesma.

Dessa forma já vimos que esse "Pincípio-Eu", que está em todos é Pura Consciência e

Pura Felicidade em sua verdadeira natureza.

Algo que não existe pode ser pensado (como pensar que um cabide cheio de roupas é

uma pessoa, ou pensar que uma pessoa tem ações e desfruta de objetos), mas

pensar que o Eu é inexistente, é impossível (Afinal, para que haja pensamento, deve

haver primeiro um eu que possa pensar, sem isso, não há pensamento).

Portanto o Princípio ''Eu'' é em si PRESENÇA (SAT).

É esse Princípio ''Eu'' é sua verdadeira natureza PRESENCA-CONSCIÊNCIA-

FELICIDADE (SAT-CHIT-ANANDA), que o homem comum confunde com corpo, os

sentidos e a mente. Por conta dessa confusão ele se limita e sofre.

A tarefa do homem é se libertar da prisão de achar que é o que não é. Isso só pode

ser alcançado quando conhecer a verdadeira atureza do que realmente esse homem

é, e estabelecer-se Nela.

 

APÊNDICE ''TESTEMUNHA''

No Conhecimento (Atman, Consciência) são registrados todos os objetos, sem esse

registro não há como haver objetos.

Os objetos dos sentidos (tato, som, gosto, cheiro e forma), as atividades corporais,

atividades dos sentidos (visão, audição e etc), e mente (pensamento e sentimento) -

 

todos são objetos do Conhecimento (Consciência) estão na categoria de conhecido,

pois são todos eles conhecidos pelo Eu, obviamente que se pode comprovar isso por

si mesmo quando se diz "Eu cheiro, eu penso", por exemplo.

É evidente também que sem Eu (Atman, Conhecimento), não é possível se lembrar

das últimas atividades dos sentidos, corpo e mente.

Então, é através do Conhecimento que o sentido, o corpo e a mente podem se

conectar entre si e essa conexão é essencial para a vida neste mundo.

O fato de que esse Conhecimento não é passageiro é inegável. O que passa e muda

são as atividades corporais, sensoriais e mentais.

Pensamentos sentimentos e percepções são instantaneamente gravados no

Conhecimento. Se esse não fosse permanente e constante, não haveria memória.

Para que qualquer coisa apareça há que estar aí esse Conhecimento imutável. Ele é

testemunha de tudo. Assumir a posição de testemunha não será de proveito para

realizar as atividades da vida cotidiana.

O homem que pensa ser unicamente um ente individual, não pode se ver como a

testemunha eterna de tudo e por isso ele se vê em cativeiro e em sofrimento. Pensa

ele que a vida é difícil e dolorosa e é escravizado por seus pensamentos e

sentimentos. Vive como uma carroça na qual o cocheiro largou as rédeas e o cavalo

saiu desgovernado.

Porém, quando alguém vê e assume a posição de testemunha como sendo a única

posição e nada mais, esse alcança a libertação desse cativeiro ilusório.

O conhecimento é tratado como uma ação e o eu como aquele que age quando há os

dizeres "Eu sei disso, eu sei daquilo". Aqui a palavra conhecimento não é o nome de

uma ação. Ação precisa de um instrumento assim como o ouvir precisa do ouvido.

O conhecimento não tem instrumento como tal. É um absurdo dizer que há ação além

da mente. Num sono profundo em profunda meditação (Samadhi), onde não existe

mente, a ação também é inexistente e mesmo assim o Conhecimento (Eu,

Consciência, Atman) permanece nesses estados.

Esse que conhece os pensamentos e as sensações com certeza está além da mente.

Então, se o Conhecimento está além da mente que é onde ocorrem os pensamentos,

não há como esse Conhecimento ser um realizador. E o conhecer não pode ser uma

ação. Pois o Conhecimento não é uma função de um conhecedor. Afinal não há outro

conhecedor que não o próprio conhecimento (Consciência).

Além da mente, o que há unicamente é esse Conhecimento (Consciência). Tudo o que

não é esse conhecimento, é um objeto dele. Tudo o que não é ''eu'' (aqui com letra

minúscula para dizer sobre um eu separado), é seu objeto, ''eu'' e conhecimento não

podem ser objeto um do outro. Também de forma alguma podem eles serem

separados. Portanto, o "eu" é a mesma coisa que o Conhecimento, eles são um e o

mesmo.

 

O eu em sua real natureza não é possuidor de corpo, sentidos ou mente. Todo

cativeiro e miséria nascem da confusão de que o ''eu'' é um fazedor-desfrutador.

E mesmo que haja tal confusão, Eu permanece como testemunha. A percepção disso

cessa a visão distorcida. Porém, independente de qualquer coisa, o Eu como

testemunha É, Foi e sempre Será invariavelmente a Testemunha.

Permanecer aí é a única coisa necessária.

É isso que esse verso do Ashtavakra quer dizer:

''Você é o único conhecedor de tudo, então você é alma liberada. Ver o

conhecedor de forma diferente (ou não vê-lo como tal) é o seu único cativeiro''.

 

APÊNDICE ''MUNDO''

 

Examinar o mundo também é útil para estabelecer-se na consciência. Aquilo que é

percebido não se difere do percebedor. O Eu é que percebe o mundo, logo, o mundo

não é diferente do Eu, pelo contrário, é o mundo o próprio percebedor.

Para esclarecer o significado de mundo há que elaborar uma explicação. É o mundo

os objetos sensoriais (forma, toque, gosto e cheiro). Não há como separar os objetos

sensoriais das percepções sensoriais. Só há objetos quando há percepção deles.

Não se pode pensar numa forma sem que a ideia do ver faça parte do ato de pensar,

ou seja, instantaneamente a ideia de ver uma forma vem ao se pensar numa forma

(quando penso "elefante", a imagem de um elefante aparece no campo mental e

automaticamente se "vê" a forma de um elefante).

É dessa forma que acontece com os objetos dos outros sentidos (o gosto e o provar e

etc). Pode-se ver então que mesmo no campo da mente a separação do objeto da

percepção é inconcebível.Realmente só pode haver objeto enquanto há percepção.

Objeto e percepção são unos. Se a percepção está dentro e o mundo percebido não é

diferente da percepção, conclui-se que o mundo está dentro também. Portanto, não há

mundo fora.

Agora se pode examinar o que são as percepções. Elas não podem e não são

separadas da Consciência. Não se pode ver com os olhos abertos a menos que esteja

aí a Consciência (Eu). Então o que são as percepções senão a própria Consciência?

Nada. Da mesma forma acontece com todas as atividades mentais. Isso deixa claro

que todo mundo denso ou sutil é apenas Consciência.

 

A libertação do cativeiro consiste em estabelecer a atenção no fato de que tudo o que

é conhecido e o conhecedor "Eu" é pura consciência, como foi mostrado no apêndice

anterior quando foi dito que o "Princípio Eu" é Conhecimento.

Agora você pode examinar o mundo de uma forma diferente. O mundo não é nada

senão objeto de percepção. E ninguém experimenta esses objetos. A experiência é

que comprova qualquer coisa. Como não há alguém para experienciar os objetos de

percepção (mundo), não podem esses terem existência própria. O que se pode dizer é

que o conhecimento deles cria o conteúdo da experiência.

Então, com respaldo na experiência, vê-se que só há o conhecimento de um mundo e

não o mundo em si. Mas se o mundo não existe, como pode haver o conhecimento de

um mundo?

Então o que realmente é experienciado não é o conhecimento de um mundo, mas sim

o Conhecimento do próprio Conhecimento. Portanto, o que é chamado de mundo é

apenas o Conhecimento (Consciência, Atma, Eu).

Aqui se evidenciou que o mundo é uma percepção e que a percepção é a própria

Consciência. De maneira mais direta ainda, se pode falar que os mundos densos e

sutis (físicos e mentais) não podem ser separados do Conhecimento em momento

algum.

Eles nada são senão CONSCIÊNCIA .