Koans e Contos Zen

"Tenhais confiança não no mestre, mas no ensinamento.

"Tenhais confiança não no ensinamento, mas no espírito das palavras.
"Tenhais confiança não na teoria, mas na experiência.

"Não creiais em algo simplesmente porque vós ouvistes.

"Não creiais nas tradições simplesmente porque elas têm sido mantidas de geração para geração.

"Não creiais em algo simplesmente porque foi falado e comentado por muitos.
"Não creiais em algo simplesmente porque está escrito em livros sagrados; não creiais no que imaginais, pensando que um Deus vos inspirou.

"Não creiais em algo meramente baseado na autoridade
de seus mestres e anciãos.
"Mas após contemplação e reflexão, quando vós percebeis que algo é conforme ao que é razoável e leva ao que é bom e benéfico tanto para vós quanto para os outros, então o aceiteis e façais disto a base de sua vida."

Gautama Buddha - Kalama Sutra

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Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber o que é Aquilo,
Não deves afirmar ou negar nada.
Pois o que quer que seja afirmado não é a verdade, E o que quer que seja negado não é verdadeiro.

Como alguém poderá dizer com certeza o que Aquilo possa ser

Enquanto por si mesmo não tiver compreendido plenamente o que É?
E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma Região

Onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde possa seguir?
Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhes apenas o silêncio,

Silêncio - e um dedo apontando o Caminho.

 

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"Verso Zen"

Antes de entendermos o Zen, as montanhas são montanhas e os rios são rios;
Ao nos esforçarmos para entender o Zen, as montanhas deixam de ser montanhas e os rios deixam de ser rios;

Quando finalmente entendemos o Zen, as montanhas voltam a ser montanhas e os rios voltam a ser rios.

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Uma xícara de Chá


Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas.Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.
O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:


"Está muito cheio. Não cabe mais chá!"
"Como esta xícara," Nan-in disse, "você está cheio de suas próprias
opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?"

 

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Tanzan e Ekido certa vez viajavam juntos por uma estrada lamacenta.
Uma pesada chuva ainda caía, dificultando a caminhada. Chegando a uma curva, eles encontraram uma bela garota vestida com um quimono de seda e cinta, incapaz de cruzar a intercessão.
"Venha, menina," disse Tanzan de imediato. Erguendo-a em seus braços, ele a carregou atravessando o lamaçal.
Ekido não falou nada até aquela noite quando eles atingiram o
alojamento do Templo. Então ele não mais se conteve e disse:
"Nós monges não nos aproximamos de mulheres," ele disse a Tanzan, "especialmente as jovens e belas. Isto é perigoso. Por que fez aquilo?"


"Eu deixei a garota lá," disse Tanzan. "Você ainda a está carregando?"

 

 

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A Lua Não Pode Ser Roubada


Ryokan, um mestre Zen, vivia a mais simples e frugais das vidas em uma pequena cabana aos pés de uma montanha. Uma noite um ladrão entrou na cabana apenas para descobrir que nada havia para ser roubado.
Ryokan retornou e o surpreendeu lá.
"Você fez uma longa viagem para me visitar," ele disse ao gatuno, "e
você não deveria retornar de mãos vazias. Por favor tome minhas roupas como um presente."
O ladrão ficou perplexo. Rindo de troça, ele tomou as roupas e
esgueirou-se para fora.
Ryokan sentou-se nu, olhando a lua.
"Pobre coitado," ele murmurou. "Gostaria de poder dar-lhe esta bela
lua."

 

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O Mais Importante Ensinamento


Um renomado mestre Zen dizia que seu maior ensinamento era este:
Buddha é a sua mente. De tão impressionado com a profundidade implicada neste axioma, um monge decidiu deixar o Monastério e retirar-se em um local afastado para meditar nesta peça de sabedoria. Ele viveu 20 anos
como um eremita refletindo no grande ensinamento.
Um dia ele encontrou outro monge que viajava na através da floresta próxima à sua ermida.

Logo o monge eremita soube que o viajante também tinha estudado sob o mesmo mestre Zen.
"Por favor, diga-me se você conhece o grande ensinamento do mestre," perguntou ansioso ao outro.
Os olhos do monge viajante brilharam, "Ah! O mestre foi muito claro
sobre isto. Ele disse que seu maior ensinamento era: Buddha NÃO é a sua mente."

 

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O Sonho


Certa vez o mestre Taoísta Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta, voando alegremente aqui e ali.

No sonho ele não tinha mais a mínima consciência de sua individualidade como pessoa.

Ele era realmente uma borboleta. Repentinamente, ele acordou e descobriu-se deitado ali, um pessoa novamente.


Mas então ele pensou para si mesmo:
"Fui antes um homem que sonhava ser uma borboleta, ou sou agora uma borboleta que sonha em ser um homem?"

 

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O Elefante e a Pulga


Roshi Kapleau (um mestre Zen moderno) concordou em falar a um grupo de psicanalistas sobre Zen. Após ser apresentado ao grupo pelo diretor do instituto analítico, o Roshi quietamente sentou-se sobre uma almofada colocada sobre o chão. Um estudante entrou, prostrou-se diante do mestre,
e então sentou-se em outra almofada próxima, olhando seu professor.
"O que é Zen?" o estudante perguntou.

O Roshi pegou uma banana, descascou-a, e começou a comê-la.
"Isso é tudo? O senhor não pode me dizer nada mais?" o estudante disse. "Aproxime-se, por favor."

O mestre replicou. O estudante moveu-se mais para perto e o Roshi balançou o que restava da banana em frente ao rosto do outro. O estudante fez uma reverência e partiu.
Um segundo estudante levantou-se e dirigiu-se à audiência:
"Vocês todos entenderam?" Quando não houve resposta, o estudante adicionou:
"Vocês acabaram de testemunhar uma completa demonstração do Zen. Alguma questão?"
Após um longo silêncio constrangido, alguém falou.


"Roshi, eu não estou satisfeito com sua demonstração. O senhor nos mostrou algo que eu não tenho certeza de ter compreendido. DEVE existir uma maneira de nos DIZER o que é o Zen!"
"Se você insiste em usar mais palavras," o Roshi replicou, "então Zen é 'um elefante copulando com uma pulga...'".

 

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Onde está sua mente?


Finalmente, após muitos sofrimentos, Shang Kwang foi aceito por Bodhidharma como seu discípulo. O jovem então perguntou ao mestre: "Eu não tenho paz de espírito. Gostaria de pedir, Senhor, que pacificasse minha mente."
"Ponha sua mente aqui na minha frente e eu a pacificarei!" replicou Bodhidharma.
"Mas... é impossível que eu faça isso!" afirmou Shang Kwang.
"Então já pacifiquei a sua mente.", conclui o sábio.

 

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 Natureza -


Dois monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges imediatamente pegou-o e o colocou na margem. No processo ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela e novamente o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião e novamente foi picado. O outro monge então perguntou:
"Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe
que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?"
"Porque," replicou o monge, "agir com compaixão é a minha natureza." (Outra versão deste conto descreve uma raposa que concorda em
carregar um escorpião em suas costas através de um rio, sob a condição que o escorpião não o pique. Mas o escorpião ainda assim pica a raposa quando ambos estavam no meio da correnteza. Enquanto a raposa afundava, levando o escorpião consigo, ela lamentosamente perguntou ao escorpião por que tinha condenado a ambos à morte ao picá-la. "Porque é minha natureza.". A mesma estória é encontrada na tradição indígena americana.

No Brasil a raposa é substituída por um sapo.)

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Talvez

 

Há um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.
"Que má sorte!" eles disseram solidariamente.
"Talvez," o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.
"Que maravilhoso!" os vizinhos exclamaram.
"Talvez," replicou o velho homem. No dia seguinte, seu filho tentou
domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.
"Que pena," disseram.
"Talvez," respondeu o fazendeiro. No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.
O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:
"Talvez."

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Cipreste


Um monge perguntou ao mestre:
"Qual o significado de Dharma-Buddha?"
O mestre apontou e disse:
"O cipreste no jardim."
O monge ficou irritado, e disse:
"Não, não! Não use parábolas aludindo a coisas concretas! Quero uma explicação intelectual clara do termo!"
"Então eu não vou usar nada concreto, e serei intelectualmente claro," disse o mestre. O monge esperou um pouco, e vendo que o mestre não iria continuar fez a mesma pergunta:
"Então? Qual o significado de Dharma-Buddha?"
O mestre apontou e disse:
"O cipreste no jardim."